O RAMO SEM FRUTO E O CUIDADO DO PAI
por Anselmo Lima
Almeida Corrigida e Fiel 2007
Jo 15:2: "Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto."
Versão Almeida Recebida 2011
Jo 15:2: "Toda vara em mim que não dá fruto, ele a corta; e toda vara que dá fruto, ele a limpa, para que dê mais fruto."
Em todas as traduções que consultei, aparece o termo “tira” ou “corta”. No entanto, se olharmos para o texto com mais atenção, evitando um viés condenatório e punitivo, e enxergarmos o Pai como agricultor zeloso, podemos compreender melhor o sentido do termo grego αιρω (airō). Essa palavra, geralmente traduzida como “cortar” ou “tirar”, também possui o significado de “levantar”.
Antes de continuar, quero deixar claro que compreendo a dificuldade do texto quanto ao verdadeiro sentido da palavra airō. Por um lado, há o entendimento de “cortar”, no sentido de juízo; por outro, que é a minha reflexão, existe o sentido de graça: levantar o ramo caído que não está produzindo frutos. Preciso pontuar que, no versículo 6, há sim uma punição, mas, nesse caso, ela se aplica apenas aos que não estão em Cristo. São ramos secos, desligados da videira, sem vida em si mesmos.
Dito isto, quero avançar para aquilo que entendo ser plenamente coerente com a natureza de Deus Pai e do Filho: o cuidado amoroso, a restauração constante e a graça que sustenta os ramos, para que possam permanecer na videira e frutificar.
Se buscarmos entender o versículo da seguinte forma:
João 15:2 “Todo ramo que não dá fruto em mim, "ele levanta" (reposiciona); e todo ramo que dá fruto, ele limpa, para que dê mais fruto ainda.”
Teríamos uma visão diferente, como se a segunda parte fosse, na verdade, uma consequência da primeira.
Essa compreensão é muito rica, porque mostra um fluxo natural: primeiro o Pai levanta o ramo caído, reposicionando-o para que receba graça, luz e vida; depois, quando o ramo já começa a frutificar, Ele o limpa e poda, para que produza ainda mais. Ou seja, o cuidado inicial do agricultor abre caminho para o processo contínuo de aperfeiçoamento. Dentro do contexto agrícola, esse sentido é muito coerente: o agricultor não elimina de imediato o ramo que não dá fruto, mas o ergue da poeira, limpa a sujeira e o posiciona (amarra mais alto) de forma a receber mais luz e ventilação, para que possa frutificar. Assim, o ensino de Jesus ganha ainda mais profundidade, revelando o cuidado paciente e restaurador do Pai. O que Jesus nos revela é que o Pai, o agricultor, ergue os ramos que não estão dando frutos, para que recebam mais luz, ventilação e calor. Dessa forma, esses ramos podem sobreviver e, enfim, produzir frutos.
Já ouvi muitos irmãos comentando sobre esse versículo, mas sempre conduzindo à ideia de que o Pai pune o ramo por não produzir frutos.
Ora, vejamos a incoerência:
Pode o ramo produzir frutos por si mesmo?
Teria ele essa capacidade?
Obviamente, não! Então, porque o Pai o puniria?
Esse ponto é fundamental: o ramo só pode frutificar se estiver ligado à videira, recebendo dela a seiva e a vida. A metáfora de Jesus não fala de independência, mas de dependência absoluta. O agricultor não pune o ramo por não dar fruto; ele o levanta, cuida e o coloca em posição de receber aquilo que precisa para frutificar.
Isso fica claro nos versículos 4 e 5
Jo 15:4-5: "Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós, os ramos. Aquele que permanece em mim, como eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim, nada podeis fazer."
Portanto, como poderia o ramo (nós), permanecer na videira por vontade própria, se o Pai, o agricultor, o cortasse como punição por não dar fruto? O ramo só pode produzir fruto se estiver ligado à videira, recebendo a vida que flui da sua seiva. Esse raciocínio evidencia a incoerência da leitura punitiva: o ramo não tem autonomia para frutificar sozinho. Ele depende totalmente da graça (recursos como luz solar, ventilação) e da própria Videira. Se o agricultor fosse apenas um juiz que corta e descarta, não haveria espaço para restauração. Mas se o agricultor é cuidadoso e levanta o ramo, então a mensagem de Jesus revela o amor paciente do Pai, que dá condições para que o ramo volte a ter os recursos necessários para frutificar.
Repare que não faz sentido: Não há razão para o Pai "cortar" alguém que não dá fruto, estando ele ainda na videira. Isso contradiz o cuidado de Deus para com aqueles que estão em Cristo.
Note que no versículo Jo 15:6: "Quem não permanecer em mim será lançado fora, como um ramo, e secará. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados." existe punição apenas para os ramos que não permanecem nEle, e não para os que deixam de dar fruto. O ramo desligado da videira inevitavelmente secará, pois não possui vida em si mesmo, e nem poderia ter. Afinal, o ramo que não está unido à videira não tem como receber a seiva, o líquido vital que circula pelas plantas, transportando água, nutrientes e açúcares.
É importante sinalizar o termo “como um ramo” ou “à semelhança do ramo”. Aqui há uma diferença implícita: aquele que é cortado e lançado fora é como um ramo, mas não é de fato um ramo vivo. Ele está seco, pois não possui vida, não está ligado à videira. Logo, é apenas semelhante, mas não é igual aos ramos que permanecem na videira e são cuidados pelo agricultor. Essa observação é muito significativa, porque mostra que Jesus não está falando de um ramo verdadeiro que ainda recebe vida da videira, mas de algo que apenas se assemelha a um ramo. A distinção entre “ser” e “parecer” é central: só quem permanece na videira tem vida e pode frutificar; quem está desligado pode até ter aparência de ramo, mas não passa de madeira seca.
O ensino de Jesus é direto: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós” (Jo 15:4). Se o agricultor cortar o ramo, como poderia este cumprir tal mandamento? É simplesmente incoerente pensar dessa forma. Enquanto o ramo estiver na videira, a vida da videira estará nele. Mas, se não permanecer unido, inevitavelmente secará, pois separado da videira não há como receber a seiva que lhe dá vida. Esse ponto reforça a lógica da metáfora: a condenação não está na falta de fruto, mas na separação da fonte da vida. O Pai não pune o ramo que ainda está ligado à videira; ao contrário, Ele o ergue e cuida para que frutifique. A verdadeira morte acontece apenas quando há desligamento da videira, pois sem a seiva não há possibilidade de sobrevivência.
Jo 15:8: "Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos."
Como pode o Pai ser glorificado pelo fruto que vem do ramo? Seria como afirmar que temos algum fruto em nós mesmos. Na verdade, Deus só recebe de nós aquilo que procede dEle, pois o homem nada de bom tem a oferecer a Deus. Os frutos que glorificam ao Pai provêm do próprio Deus. É exatamente esse o ensino: o Pai cuida, levanta e restaura os ramos, para que eles possam produzir frutos por meio da videira.
O ramo não é fonte, mas canal. O fruto não é mérito humano, mas resultado da vida que flui da videira. O Pai é glorificado porque Seu cuidado torna possível que o ramo manifeste aquilo que vem dEle mesmo. Nisso o Pai é glorificado, por meio da vida da Videira (Cristo).
Se entendermos que, por não produzir frutos, seremos literalmente cortados, isso soa como a tentativa humana de gerar frutos apenas por medo da punição. Ora, se esse fosse o caso, então todos estaríamos condenados, pois não temos capacidade de cumprir tal demanda sem receber dEle. Os frutos que glorificam ao Pai não nascem da força humana, mas da vida que flui da Videira. O ensino de Jesus não é sobre esforço humano movido pelo medo, mas sobre permanência nEle, de onde procede toda a vida e todo fruto.
Quero chamar atenção para a segunda parte do versículo 2:
João 15:2 “... e todo ramo que dá fruto, ele limpa (poda), para que dê mais fruto ainda.”
A ideia aqui é literalmente a de limpar, com o cuidado do agricultor que aperfeiçoa o ramo. Isso significa corrigir sua direção, caso esteja crescendo para o lado errado, e retirar folhas que impedem a entrada da luz. Nesse sentido, precisamos ser cortados (podados), para que possamos sempre produzir mais frutos, e frutos de boa qualidade.
Gostaria de encerrar com o versículo:
Jo 15:9: "Como meu Pai me ama, assim também eu vos amo. Permanecei no meu amor."
Não consigo compreender o amor de Cristo pelos ramos sem o cuidado, zero e a restauração. A vontade de Deus é zelar por todos os seus filhos, cuidando, restaurando e levantando-os, para que recebam mais vida e mais luz, e assim deem muito fruto. O amor de Cristo não se revela em abandono ou punição, mas em cuidado constante. O agricultor não apenas observa, mas intervém com paciência e zelo, garantindo que os ramos tenham condições de frutificar. A glória do Pai está justamente em ver a vida da videira se multiplicar nos ramos, mostrando que tudo procede dEle.
Que possamos nos permitir ser cuidados pelo Pai, e que o Espírito de Deus nos conceda percepção e sensibilidade para compreendermos Suas ações. Que Ele nos cerque com Seu amor e nos mostre o caminho do crescimento, conduzindo-nos ao despertar da vida de Cristo em nós. Assim, teremos o privilégio de sermos ramos cheios de frutos.